r/FilosofiaBAR • • Aug 31 '25

Megathread Por onde começar? Livros filosóficos para iniciantes!

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"A maior parte do problema com o mundo é que os tolos e os fanáticos estão sempre tão certos de si, e as pessoas sensatas tão cheias de dúvidas." - Bertrand Russell

Segue abaixo uma seleção de livros, começando pelos mais didáticos sobre a história da filosofia até alguns clássicos mais acessíveis, que podem interessar àqueles que desejam iniciar e explorar as principais mentes da filosofia ocidental. Este tópico é uma atualização do anterior, onde busquei incluir algumas recomendações dos membros de nosso Reddit.

Nome do Livro/Autor Temas Abordados Breve Descrição Link para o Livro
O Livro da Filosofia - Douglas Burnham Filosofia Geral, Didático, Introdução Uma compilação abrangente de conceitos filosóficos essenciais, grandes pensadores e escolas de pensamento ao longo da história, apresentada de forma acessível e ricamente ilustrada. O Livro da Filosofia
Uma Breve História da Filosofia - Nigel Warburton História da Filosofia, Didático Um livro que oferece uma visão panorâmica da história da filosofia, abrangendo desde os filósofos pré-socráticos até as correntes contemporâneas, tornando o estudo da filosofia acessível e compreensível. Uma Breve História da Filosofia
Dicionário de Filosofia - Nicola Abbagnano Filosofia Geral, Lógica, Epistemologia Nicola Abbagnano apresenta um extenso dicionário com definições e conceitos fundamentais da filosofia, fornecendo uma referência essencial para estudantes e entusiastas da filosofia. Dicionário de Filosofia
A História da Filosofia - Will Durant História da Filosofia Uma obra monumental que apresenta de forma acessível a história do pensamento filosófico, proporcionando uma visão abrangente e contextualizada da evolução da filosofia. A História da Filosofia
O Mundo de Sofia - Jostein Gaarder Ficção, Drama, História da Filosofia, Introdução, Casual Uma introdução à filosofia por meio da história fictícia de uma jovem chamada Sofia, que começa a receber cartas de um filósofo misterioso. O livro explora diferentes filósofos e ideias ao longo da história. Muito fácil e simples de ler. O Mundo de Sofia
O Mito de Sísifo - Albert Camus Existencialismo, Suicídio O ensaio de Albert Camus aborda o absurdo da existência humana e a busca de significado em um mundo aparentemente sem sentido, explorando temas como o suicídio e a revolta contra a condição absurda. O Mito de Sísifo
Carta a Meneceu - Epicuro Ética, Felicidade Uma das mais famosas obras do filósofo grego Epicuro. Epicuro apresenta suas reflexões sobre a busca humana pela felicidade, estabelecendo que o objetivo da vida é a busca pelo prazer, que ele define não como indulgência desenfreada, mas como a ausência de dor física e angústia mental. Carta a Meneceu
Apologia de Sócrates - Platão Ética, Justiça, Clássico Neste diálogo, Platão relata o discurso de defesa proferido por Sócrates durante seu julgamento em Atenas, oferecendo insights sobre a vida e a filosofia de Sócrates, bem como reflexões sobre ética, justiça e a busca pela verdade. Apologia de Sócrates
A República - Platão Justiça e Política, Metafísica, Clássico Um dos diálogos filosóficos mais famosos de Platão, onde Sócrates discute sobre justiça, política e a natureza do homem ideal. A República
O Príncipe - Nicolau Maquiavel Política, Governo Maquiavel oferece conselhos práticos sobre como governar e manter o poder, discutindo estratégias políticas e éticas em uma obra que gerou debates sobre a moralidade na política. O Príncipe
A Política - Aristóteles Ética, Política, Justiça, Clássico Aristóteles explora diversos aspectos da política, incluindo formas de governo, justiça, constituições, cidadania e a relação entre o indivíduo e a comunidade, oferecendo uma análise seminal sobre a organização da sociedade. A Política
Sobre a Brevidade da Vida - Sêneca Ética, Filosofia Prática, Estoicismo Sêneca discute a natureza do tempo e da vida humana, argumentando sobre a importância de viver de forma significativa e consciente, mesmo diante da inevitabilidade da morte. Sobre a Brevidade da Vida
Meditações - Marco Aurélio Ética, Estoicismo Diário de Marco Aurélio, imperador romano, que oferecem reflexões sobre virtude, dever, autodisciplina e aceitação do destino. Meditações

Novamente, todos que quiserem contribuir serão bem-vindos para nos apresentar novas obras que possam interessar aos novos leitores. Dependendo de como as coisas fluírem, talvez eu faça outros tópicos com livros mais avançados e técnicos. Obrigado a todos!


r/FilosofiaBAR • • 2d ago

Megathread Megathread — Política, Ação Política, Ação Penal, Poder Coercitivo, Nação, Leis, Constituição, Ideologia Política, Governo — October 22, 2026

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Política
Atividade relacionada à gestão de poder, tomada de decisões coletivas e negociação de interesses em qualquer contexto organizacional. Manifesta-se não somente no âmbito estatal, mas também em esferas privadas (cooperativas, empresas, associações) e comunidades informais, onde processos de conflito, cooperação e definição de normas orientam ações em prol de objetivos comuns ou específicos.

Ação Política
Práticas concretas para influenciar estruturas de poder, como votar, protestar, organizar movimentos sociais, paralisar atividades produtivas (greves, ocupações) ou negociar acordos coletivos. Inclui tanto ações institucionalizadas quanto formas não convencionais de resistência ou pressão, visando alterar ou consolidar ordens estabelecidas.

Nação
Comunidade de pessoas unidas por identidade cultural, histórica, linguística ou étnica, com senso de pertencimento compartilhado. Distinta do Estado (entidade territorial com instituições soberanas), uma nação pode existir sem controle político próprio (ex.: povos indígenas, comunidades transnacionais).

Leis
Normas jurídicas estabelecidas por autoridades competentes ou consensos coletivos para regular condutas e garantir ordem social. São coercitivas, com sanções para infrações, e abrangem sistemas formais (estatais) ou informais (costumes, códigos comunitários), dependendo do contexto sociopolítico.

Constituição
Texto ou conjunto de princípios fundamentais que estruturam um sistema de governança, definindo direitos, limites de poder e mecanismos de decisão. Pode ser formal (ex.: constituição escrita de um país) ou informal (ex.: convenções não escritas em monarquias tradicionais).

Ideologia Política
Sistema de ideias, valores e pressupostos que orientam visões sobre organização social, distribuição de poder e justiça. Funciona como guia para ações coletivas, moldando projetos políticos e legitimando ou contestando estruturas existentes, sem se reduzir a classificações pré-definidas.

Governo
Conjunto de estruturas e processos que coordenam ações coletivas, não se restringindo ao Estado. Abrange sistemas de governança em corporações, comunidades locais, organizações internacionais e grupos informais, responsáveis por estabelecer regras, alocar recursos e resolver conflitos mediante autoridade e legitimidade.

Poder Coercitivo
Capacidade de impor normas por meio da força ou ameaça de sanções, exercida por entidades como Estados, mas também por instituições não estatais (ex.: tribunais tradicionais, organizações armadas em contextos de conflito). Manifesta-se mediante mecanismos de controle social, desde punições físicas até sanções sociais ou econômicas.

Ação Penal
Processo de responsabilização por infrações consideradas graves à ordem coletiva, que não se limita ao Estado. Em sistemas não estatais, pode ser conduzida por:

  • Comunidades tradicionais (ex.: justiça indígena baseada em mediação);
  • Instituições religiosas (ex.: tribunais islâmicos em sociedades sob sharia);
  • Mecanismos privados (ex.: arbitragem em códigos corporativos ou cooperativas);
  • Ordens internacionais (ex.: Tribunal Penal Internacional para crimes transnacionais). Varia conforme o regime político, podendo envolver processos acusatórios, inquisitórios ou restaurativos, com diferentes atores iniciadores (Estado, vítimas, comunidades ou entidades supranacionais).

Questionário de ideologia política e fonte da imagem da publicação: https://drxty.github.io/poliquest/


r/FilosofiaBAR • • 2h ago

Discussão Você está vivendo ou apenas cumprindo os procedimentos da própria vida?

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A uma forma de prisão que não precisa de grades, mas se constrói aos poucos, por meio de horários, obrigações e expectativas que seguimos sem questionar. No início, tudo parece necessário trabalhar, estudar, cumprir compromissos e organizar o tempo. O problema começa quando a organização deixa de servir à vida e a vida passa a existir apenas para manter essa organização funcionando

Acordamos pensando no que precisamos resolver, trabalhamos esperando descansar e, quando finalmente temos tempo livre, sentimos que deveríamos estar fazendo algo produtivo. Até o descanso se transforma em uma obrigação, como se precisássemos aproveitá-lo da maneira correta. Em algum momento, deixamos de simplesmente viver as experiências e começamos a procurar instruções para tudo, inclusive para nossos sentimentos e relacionamentos

Essa burocracia não está apenas nos documentos e procedimentos das instituições, mas também dentro de nós. Pensamos antes de falar, calculamos como seremos interpretados e tentamos controlar a maneira como os outros nos enxergam. As redes sociais intensificam isso ao transformar experiências em números, curtidas e visualizações. Já não basta viver um momento; muitas vezes, sentimos a necessidade de demonstrar que ele foi especial. Aos poucos, podemos confundir aquilo que realmente sentimos com a imagem que aprendemos a apresentar

Nos relacionamentos, essa lógica aparece quando transformamos o carinho em uma espécie de contabilidade emocional. Contamos quem procurou primeiro, quem demonstrou mais interesse e quem se esforçou mais. A reciprocidade é importante, mas, quando cada gesto se torna uma dívida, a confiança perde espaço para o cálculo. Passamos a analisar tanto as relações que corremos o risco de esquecer como é simplesmente estar com alguém

Isso não significa que devemos abandonar regras, responsabilidades ou planejamento. A organização pode facilitar a vida, assim como os procedimentos podem proteger pessoas. O problema surge quando os meios se tornam mais importantes do que os objetivos e continuamos seguindo regras mesmo depois de esquecer por que elas existem. Algo semelhante acontece quando mantemos rotinas que nos desgastam apenas porque acreditamos que a vida adulta deve funcionar daquela maneira

A tecnologia também contribui para essa sensação. Temos ferramentas que economizam tempo, mas continuamos sentindo que ele nunca é suficiente. Estamos constantemente disponíveis, dividimos nossa atenção entre inúmeras exigências e, quando finalmente não temos nada para fazer, sentimos a necessidade de preencher o silêncio. Em vez de questionarmos se as cobranças são razoáveis, tentamos nos adaptar indefinidamente a elas, como se o problema estivesse sempre na nossa incapacidade de produzir mais

Mas somos seres contraditórios, mudamos de opinião e nem sempre conseguimos controlar o que sentimos. Nem toda experiência precisa resultar em uma conquista, nem todo momento precisa ser compartilhado e nem todo sentimento precisa ser explicado imediatamente. A imprevisibilidade não é necessariamente uma falha da vida; às vezes, é justamente o que nos permite perceber que estamos seguindo um caminho sem saber se ainda queremos percorrê-lo

Não podemos simplesmente abandonar nossas responsabilidades, mas podemos questionar quais delas realmente importam e quais mantemos apenas por hábito. Talvez o contrário de burocratizar a vida não seja viver sem regras, mas deixar de tratar tudo como um procedimento: descansar sem transformar o descanso em uma meta, gostar de algo sem precisar justificar a escolha e mudar de ideia sem considerar isso uma derrota

A pergunta é simples estamos organizando nossa vida para que ela tenha espaço para aquilo que importa ou estamos sacrificando aquilo que importa para manter nossa vida organizada?

É possível cumprir horários, alcançar metas e atender às expectativas e, ainda assim, sentir que alguma coisa essencial ficou para trás. Passemos tanto tempo tentando fazer tudo corretamente que nos esquecemos de perguntar o que realmente queremos fazer. E talvez a maior burocracia da nossa época seja a quantidade de regras que aprendemos a impor aos próprios sentimentos, até o ponto em que já não sabemos mais como viver sem pedir autorização para sermos nós mesmos


r/FilosofiaBAR • • 1h ago

Discussão Se isolar em conjunto: sobre bolhas sociais, saúde mental e a busca por pertencimento

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Todos temos gostos e preferências, e categorizamos o mundo em que vivemos. Isso é facilmente constatável no nosso dia a dia: escolhemos nosso vestuário, os lugares onde desfrutamos da vida social. Acreditamos ter um mínimo de controle sobre isso.

Já discuti em outros momentos sobre os conflitos que abrangem nossas escolhas e comportamentos, mas vale retomar a questão do sentimento de pertencimento a um grupo social, independente de poder aquisitivo. O que ficou expresso com a ascensão dos meios digitais foi o engajamento de um grande número de pessoas em determinadas discussões. Claro que existem indivíduos que se beneficiam de fraudes e manipulam números de seguidores, mas o reflexo do pensamento e da forma de socialização fica registrado e pode ser analisado. As chamadas "bolhas" e os segmentos de interesse são presentes e bastante enraizados, como uma estrutura que se ergueu ao longo de nosso processo histórico.

Muito se questiona sobre a influência digital na formação dos indivíduos, mas devemos ir além: a internet é uma vitrine onde se expõe e se reflete o modus operandi de nossa contemporaneidade.

Hoje trago um problema que vem me preocupando nos últimos meses. Algo que tem me tirado a paciência e prejudicado minha capacidade de interpretação e estranhamento, exigências para um bom trabalho de pesquisa e análise dentro do meu papel de cientista social. Isso é grave, pois não posso oferecer um comportamento profissional se não mantiver a racionalidade e a serenidade para não fazer mau uso das oportunidades, deixando que o senso comum seja objetivo no meu entendimento das situações.

Desde setembro de 2021, faço parte de um grupo focado na busca e manutenção da nossa saúde mental. Ao longo do processo histórico, o senso comum tratou esse tema de maneira jocosa e depreciativa, como se aqueles que sofressem ou procurassem ajuda psicológica, neurológica ou psiquiátrica fossem inferiores e incapazes de recuperação, sendo vítimas de perseguições e violências morais.

Trago o tema saúde mental porque ela é causadora, mas não a única, da criação de duas categorias de indivíduos. Uma delas é formada por aqueles que, por causa de sentimentos reprimidos, saúde clínica não priorizada e motivações fruto de traumas e indecisões acumuladas, reagem e se apresentam como a forma única e final de qualquer conceito ou conjunto de ideias. Eles se denominam como a verdadeira forma de se comportar em sociedade; qualquer coisa contrária é um mal a ser combatido. Esse comportamento não está vinculado à falta de acesso à educação formal nem impede que os indivíduos exerçam alguma atividade profissional. Eles se consideram "pessoas normais". O termo é utilizado pelas duas partes, mas esta a que me refiro tem como caráter o equilíbrio e a harmonia social, sendo agente do conservadorismo da ética e da moral.

O segundo grupo se considera um crítico da visão de mundo e práticas dos mencionados anteriormente, mas mesmo não sendo exemplo de conduta correta e estando sob o risco de falhas e más decisões, também fica claro o seu posicionamento sobre questões sociais e temas ligados ao nosso momento histórico. Esta comparação não visa estabelecer qual grupo está mais correto, sabemos que opiniões e decisões são alteradas conforme temos contato com diferentes realidades. Mas cada um está tendo um papel cada vez mais definidor e objetivo quando me refiro à adesão, permanência e manutenção de grupos sociais. Que em determinados casos, define o indivíduo se opondo até mesmo a orientações e leis profissionais, religiosas e filosofias de vida.

Voltemos ao que consideramos corriqueiro em nossa rotina. Desde o instante que saímos da cama pela manhã, cumprimos um rito, com nossa própria "liturgia" repleta de normas e leis gerais. Isso nos remete ao início de nossa questão, pois o fato de termos acesso a mídias e conteúdos digitais nos fez mais dinâmicos socialmente, visto o grande número de fóruns e grupos em variadas redes sociais. Antes, interagir e compartilhar opiniões com pessoas de gostos e perfis semelhantes era limitado ao nosso grupo de parentesco, profissional, afetivo, escolar ou acadêmico, e restrito à nossa região geográfica e condição econômica. Hoje isso ganhou uma abrangência nunca antes imaginada. Já tínhamos a ferramenta de nos escondermos por trás de máscaras comportamentais, e isso se mostra muito bem integrado ao formato digital. Isso traz reflexões sobre como os efeitos dessa forma de coexistir se apresentam e agem em nossa sociedade. Se você se considera do bem ou do mal, seja lá o que isso signifique para os que estão ao seu redor, você não está mais sozinho, e isso é um objeto a ser estudado, pois estar só e digitar, pode não significar interação e entendimento, mas apenas uma fuga em busca de opiniões que coincidem com as nossas, não uma discussão que gere bons frutos.


r/FilosofiaBAR • • 21h ago

Citação Começando uma nova leitura

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Após ler e absorver tudo talvez venha comentar por aqui.


r/FilosofiaBAR • • 2d ago

Discussão O peixe diante do espelho: o problema ontológico da aparência

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Há algo de profundamente paradoxal nessa imagem: um peixe diante de um espelho, confrontado com uma representação de si mesmo que não é ele, embora reproduza sua forma. A cena parece trivial até percebermos que ela contém uma das dificuldades fundamentais da filosofia: a impossibilidade de confundir, sem consequências, aquilo que aparece com aquilo que é.

O peixe não está diante de outro peixe, mas de uma imagem. Para nós, essa distinção é evidente. No entanto, essa evidência esconde uma pergunta incômoda: o que nos autoriza a acreditar que nossa relação com a realidade é radicalmente diferente? Também nós não apreendemos o mundo em sua totalidade; encontramos fenômenos, construímos representações e interpretamos aquilo que se manifesta a partir das estruturas que tornam nossa experiência possível.

O problema, portanto, não é apenas que os sentidos podem nos enganar. É que não temos acesso à realidade senão por alguma forma de manifestação. Aquilo que conhecemos chega até nós sob determinadas condições, atravessado por nossa constituição biológica, nossas categorias conceituais, nossa linguagem e nossa historicidade. Não contemplamos o real de um ponto exterior à existência: pensamos a partir de dentro dela.

Platão compreendeu esse problema ao distinguir o conhecimento da aparência e ao imaginar prisioneiros que confundiam sombras com a realidade. Entretanto, a alegoria da caverna suscita uma dificuldade que frequentemente passa despercebida: como reconhecer a sombra enquanto sombra antes de conhecer aquilo de que ela é sombra? A ruptura com a aparência pressupõe alguma possibilidade de comparação, mas essa comparação, por sua vez, também precisa ser realizada a partir de uma perspectiva. O despertar filosófico não elimina magicamente o problema do conhecimento; torna-o consciente.

Kant radicaliza essa dificuldade ao distinguir o fenômeno da coisa em si. Não conhecemos os objetos independentemente das condições sob as quais podem ser experimentados por nós. Isso não implica que o mundo seja uma fabricação arbitrária da consciência, mas que a realidade tal como a conhecemos não pode ser separada das condições de sua cognoscibilidade. Há uma diferença entre negar a existência de algo independente de nós e reconhecer que não podemos reivindicar um acesso irrestrito a esse algo.

É nesse intervalo entre existência e conhecimento que o peixe se torna uma figura filosófica. O espelho não precisa mentir para produzir uma interpretação insuficiente. A imagem pode ser perfeitamente fiel às condições de sua formação e, ainda assim, não esgotar aquilo que representa. Talvez nossos erros mais persistentes não provenham de representações inteiramente falsas, mas de representações parciais às quais atribuímos validade absoluta.

O mesmo acontece quando tentamos compreender os outros ou a nós mesmos. Conhecemos gestos, palavras e comportamentos, mas frequentemente tratamos nossas inferências como se fossem acesso direto à interioridade alheia. Construímos uma imagem de alguém e, pouco a pouco, passamos a interpretar tudo o que essa pessoa faz como confirmação da imagem construída. O outro deixa de ser uma existência que excede nossa compreensão e passa a ser um objeto encerrado em nossas categorias.

Com nós mesmos, o mecanismo é ainda mais sutil. A consciência não é necessariamente transparente a si própria. Podemos desconhecer os motivos que orientam nossas ações, racionalizar nossos interesses e confundir a narrativa que construímos sobre nossa identidade com a totalidade daquilo que somos. Nesse sentido, o autoconhecimento não consiste simplesmente em olhar para dentro, mas em desconfiar da pretensão de que aquilo que encontramos dentro de nós seja imediatamente verdadeiro.

Surge, então, um problema epistemológico incontornável: se toda investigação da realidade depende de faculdades humanas, como distinguir uma interpretação justificada de uma ilusão coerente? Não podemos resolver a questão afirmando que cada indivíduo possui sua própria verdade, pois isso dissolveria a diferença entre perspectiva e validade. Tampouco podemos pressupor que exista, ao nosso alcance, um ponto de vista absolutamente neutro, livre de todas as condições que tornam o conhecimento possível.

Talvez a objetividade deva ser compreendida não como a ausência impossível de perspectiva, mas como a capacidade de submeter nossas perspectivas a critérios que não dependam exclusivamente de nossa vontade: evidências, coerência, argumentação, confronto com o mundo e abertura à refutação. Não nos tornamos infalíveis quando reconhecemos nossos limites; tornamo-nos, ao menos, capazes de investigar os mecanismos pelos quais podemos estar enganados.

Há, contudo, um paradoxo mais profundo: a própria razão que utilizamos para examinar os limites do conhecimento é também uma das condições que delimitam aquilo que podemos conhecer. Não podemos simplesmente sair de nós mesmos para comparar nossas representações com a realidade em seu estado absoluto. A crítica do conhecimento não dispõe de um lugar exterior àquilo que critica.

Talvez seja precisamente aí que comece a filosofia: não na promessa de substituir todas as ilusões por certezas definitivas, mas na disposição de interrogar os fundamentos daquilo que julgamos saber, inclusive quando não dispomos de uma resposta capaz de encerrar a investigação.

O peixe diante do espelho não sabe necessariamente que vê uma imagem. Nós sabemos que ele vê uma imagem porque dispomos de uma compreensão que ultrapassa aquela situação particular. Mas isso não demonstra que nossa própria compreensão seja completa; demonstra apenas que somos capazes de reconhecer determinados limites sem, por isso, superar todos eles.

A questão decisiva, portanto, não é se conseguimos enxergar a realidade sem qualquer mediação, mas se existe algum critério pelo qual possamos distinguir os limites inevitáveis de nossa perspectiva dos erros contingentes que ela produz.

E talvez a pergunta mais perturbadora seja esta: se a realidade sempre nos aparece sob as condições do nosso próprio modo de conhecê-la, como podemos saber se aquilo que chamamos de lucidez é, de fato, uma aproximação da verdade e não apenas uma forma mais sofisticada de permanecermos presos às nossas próprias representações?


r/FilosofiaBAR • • 9h ago

Discussão A IA me faz perguntar se não existe um ecossistema biomatemático?

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Então mano, antes vamos lembrar oq é ecossistema.

Perdoe minha pouca precisão pois não sou biólogo, mas é um ambiente de vida sustentado por 1 conjunto de elementos físicos, químicos e biológicos.

Oxigênio, fungos e carbono faz parte do ecossistema biológico.

Agora vamos pra matemática. Ela não trabalha com fungos, oxigênio, mas com evento e probabilidade.

Ecossistema biomatemático. Nem sei se esse termo existe, inventei agora pra falar de eventos probabilisticos é estatísticos q sustentam a vida biológica.

Exemplo: imagina se uma ilha tem um vulcão com uma mega erupção acontecendo por mês? Improvável dessa ilha ter animais ou vegetais.

Um ecossistema não é só mantida por uma relação entre fatos físicos, químicos e biológicos MAS EM NÍVEIS MAIS PROFUNDOS, POR CIRCUNSTÂNCIAS MATEMÁTICAS

Imagina uma espécie de jacaré que nunca erra o bote? Imagina felinos que nunca morrem?

Isso é uma condição matemática catastrófica pro ecossistema porque o ecossistema depende até mesmo DO ERRO, DA FALHA, DO FRACASSO em algum nível.

Dito isso se a IA persegue os acertos e fsz isso com muita eficiência, ela tá quebrando uma economia q sustenta a vida desde eras.

O resultado é q humanos estão criando uma poluição matemática de um ecossistema e isso vai cobrar um preço.

É como criar uma cobra naja com asas e cérebro humano. Uma entidade que está habitando um mundo matemático nunca antes habitado.

Humanos não odeiam abelhas, mas elas estão entrando em extinção por comportamentos humanos

A IA não odeia humanos nem outra espécie, mas pode ceifar a espécie humana com seu sucesso matemático

Dissertem


r/FilosofiaBAR • • 10h ago

Discussão Aforismos sobre Narrativa.

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Contraponha ao aforismo para desenvolver a ideia melhor.

Me incomoda a necessidade constante de que haja um final feliz a todas as histórias, uma morte honrosa, uma memória póstuma, uma vida que tenha valido a pena ou até mesmo como, em vida, buscamos nos apegar a tempos melhores que estão por vir e/ou promessas de reviravoltas.

Eu tento exercitar todo dia a descrença em qualquer coisa que não tenha sólida base na realidade. Entendo que tenhamos nos acostumado com narrativas épicas, trágicas, sórdidas e célebres, mas a realidade é muito monótona. E buscar conflitos, desafios e se apegar a problemas que sequer existem, com a expectativa de que deles venha a solução para todos os nossos problemas, é imaturo e ingênuo, ao meu ver. Não que eu não me pegue flertando com crenças épicas em que eu ganho e dou a volta por cima, que no fim tudo dá certo e eu seja feliz para sempre. Eu também caio na falácia de crer que minhas chagas serão curadas, que meus traumas terão me tornado alguém melhor, que meus erros tenham me ensinado algo. Mas, sinceramente, nada nunca teve qualquer propósito, se não servir ao acaso, ao azar, ào inominável.


r/FilosofiaBAR • • 22h ago

Questionamentos Sou leiga em relação a filosofia. Quais assuntos vocês consideram interessantes pra eu começar estudar? Qual a parte mais legal da filosofia pra você?

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r/FilosofiaBAR • • 1d ago

Discussão O que há por trás da onda antifeminista nos tempos atuais ?

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É nojenta, misógina, preconceituosa e deplorável, mais de onde veio toda essa ideia antifeminista, anti voto feminino atualmente ? Vimos isso chegando e não fizemos nada ou foi algo mais sutil ?


r/FilosofiaBAR • • 1d ago

Discussão Argumentar com idiotas é um erro

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A verdadeira sabedoria no debate não consiste apenas em articular bons argumentos, mas em identificar quando o interlocutor é incapaz de compreendê-los. Sem essa clareza, o debatedor racional e fundamentado em fatos assume para si uma culpa indevida, acreditando ter falhado na didática ou na força de sua exposição, o que resulta em frustração e esgotamento.

Deve-se reconhecer que nem todo diálogo visa à busca da verdade. Diante de mentes inflexíveis, a força da lógica provoca o efeito oposto: aumenta a resistência e o temor do contraditório.

Assim, a primeira regra para entrar em uma discussão é avaliar a postura de quem está à mesa. Se não houver disposição genuína para o conhecimento, economize seus recursos. Não assuma sozinho o fardo de construir a razão onde não há interesse em alcançá-la.

No ambiente digital, esse diagnóstico é ainda mais árduo. A dinâmica da internet faz com que o interlocutor frequentemente reaja de forma impulsiva, movido por sentimentos pessoais ou motivações banais, sem ao menos ter lido ou compreendido a mensagem. O debatedor racional, presumindo que houve leitura atenta e boa-fé, investe tempo e energia refinando sua argumentação, para só então perceber que dialogava com a inflexibilidade.


r/FilosofiaBAR • • 8h ago

Questionamentos Política está muito banalizada e a polarização é a prova que não tem ninguém capacitado pra entender o motivo disso

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Agora perto das eleições, nós vemos um fenômeno que evidência muito bem o instinto humano de tribo e sensação de pertencimento (antropologia e sociologia avaliaria isso), ambos os lados atacam cegamente o outro mas ninguém quer abrir mão do que já acredita (filsofia individual avaliaria isso), é muito mais fácil achar que está correto (eu mesmo já fui bolsonarista) do que buscar entender a fonte do erro.

Política tinha que ser tratado como política e quem banalizasse ela, fosse tratado com incompetente. Nós temos diversos critérios antropológicos, sociológicos, filosóficos, etc. Que, além de por um eixo fixo na conversa, seria critério de competência e quem falasse mais com a lógica acadêmica e menos com ataque infundados que seriam descredibilizados.

Tem diversos fenômenos sociológicos que próprios sociólogos formados (aparentemente não são poucos) contribuem estatísticamente para esse argumentos, por exemplo:

* Narrativas tendenciosas que reforçam a bolha (os algoritmos das redes sociais pode explicar grande parte desse fenômeno).

* Dizem ser contra o ódio e que isso é coisa de selvagem mas ambos lados disseminam ódio na cara dura e quando confrontados com esse argumento, ficam sem saber o que falar mas a opinião continua a mesma.

* falam que o políticos deles não são ladrão mas vamos ser honestos, ambos são um lixo e esse papinho que Lula foi absolvido é muita inocência, o que mais em política é manobra pra botar dinheiro no bolso de quem se interessa, argumentar isso é praticamente assumir que todos na politica são bonzinho, o mesmo pro Flávio, só não foi condenado ainda pois é o representante mais forte da direita e os cara vão mover todos os pauzinhos necessários pra ele continuar lá com nada no nome.

* Cada lado se acha mais intelectual que o outro mas ambos só não sabem que nada sabem, todos temos hipocrisias, mas quando uma polarização é tão forte, não se resume a apenas um lado burro e um lado inteligente.

Pra mim, cada um tinha que ter em mente que evoluir é cooperar mutuamente e passar a tratar politica como discussões, onde dá cada um apresenta seu ponto (formado a partir das experiências empíricas e virtudes e não de um conceito pré-formada que só reforça a polarização) e tentam chegar em algo que funcione pra sociedade no geral, em alguns momentos o empresário tem que ser ajudado da mesma forma que o CLT tem que ser, nos somos um organismo gigante que depende um do outro.

Enfim, eu poderia passar o dia inteiro citando contradições de toda essa estrutura, pois politica hoje não é tratado como política mais, a banalização do conhecimento fez com que a pessoa que melhor falasse, seria a que mais teria visibilidade. Eu não defendo nenhum lado, ambos são infundados e todos nós sabemos que no fim, apesar de toda essa briga entre o povo, quem sai ganhando é os 2 políticos que estavam se lacrando igual 2 criança de quinto ano.

OBS: eu resolvi fazer esse post, pois estou dentro das 2 bolhas e engraçado que após o debate, tava todo mundo respostando que o lado deles foi o que o candidato menos mentiu, mas alguém formado e com experiência não faz uma análise do por que disso, eu mesmo já dei um ponto a ser trabalhado e nem sou nada da área de humanas 🤣

Outra OBS: prefiro não expor minha opinião politica mas sou quase um centro, já que minhas convicções e discernimento o mundo me fizeram formar ela, eu nunca vou me basear em um conceito pré formado e aquele velho papo de centro ser pau mandando do lado que tá mais gananhando reforça absurdamente o arguments da polarização (ponto apresentado no titulo)


r/FilosofiaBAR • • 1d ago

Discussão O que leio agora?

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Adorei o "Tractatus Logico-Philosophicus", "Assim Falou Zaratustra" e "O Crepúsculo dos Ídolos", de Wittgenstein e Nietzsche. Recomendam-me outros filósofos?


r/FilosofiaBAR • • 1d ago

Questionamentos A democracia é o melhor modelo?

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Esse atual período político me levou a refletir sobre o quão bom é a nossa democracia.

Não estou aqui para falar em prol de lado X ou Y. Estou aqui apenas para propor uma reflexão.

Uma das frases de Arthur Schopenhauer que mais gosto é:

"O homem é livre para fazer o que quer, mas não pode querer o que quer"

E inegável que hoje, a lógica dos algoritmos ditam a percepção de realidade daqueles que estão conectados.

Quem diz o que é real, o que você deve querer e como era o passado, é o algoritmo.

Desse modo, será que as eleições serão definidas pela vontade genuína do povo ou pelo que o algoritmo ditou que o povo deveria querer?

Outro ponto é, será que existe vontade genuína? Alguém pode dizer que é livre para querer o que quer?

Se sim, como garantir que a vontade genuína prevaleça diante da vontade implantada?


r/FilosofiaBAR • • 1d ago

Discussão Quando a realidade se torna inconveniente demais para ser aceita

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A algo preocupante na maneira como a sociedade lida com os problemas que ameaçam o próprio futuro. Muitas vezes, não é a falta de informação que nos impede de agir, mas a dificuldade de aceitar aquilo que a informação exige de nós. Saber que existe um problema é uma coisa, reconhecer que ele exige mudanças na maneira como vivemos, consumimos, votamos e organizamos a sociedade é outra completamente diferente. É nesse espaço entre conhecer a realidade e aceitar suas consequências que muitas das nossas contradições aparecem

Vivemos em uma época em que praticamente qualquer informação pode ser encontrada em poucos segundos, mas isso não significa que estejamos mais preparados para compreender o mundo. Nunca foi tão fácil encontrar dados, pesquisas e explicações, e ainda assim continuamos vulneráveis a discursos que confirmam aquilo em que já acreditamos. Não procuramos necessariamente entender o que aconteceu, mas encontrar alguém que nos diga que estávamos certos desde o início. A informação deixa de ser uma ferramenta para questionar nossas certezas e passa a ser uma arma para defender aquilo que não queremos abandonar

É assim que até uma crítica pode ser transformada em confirmação. Uma pessoa assiste a uma obra que denuncia a ignorância, a manipulação política e a ganância empresarial e consegue enxergar nela apenas os defeitos de seus adversários. O problema nunca está em seu próprio comportamento, mas sempre no outro. A crítica é aceita desde que não exija uma mudança de perspectiva. Dessa maneira, até aquilo que foi criado para provocar reflexão pode ser consumido sem que ninguém precise refletir de verdade

Isso acontece porque reconhecer um erro exige mais do que admitir que uma informação estava equivocada. Em certos casos, significa questionar a própria identidade, os grupos dos quais fazemos parte e as pessoas em quem depositamos confiança. É desconfortável perceber que defendemos alguém que agiu de maneira irresponsável ou que repetimos argumentos sem compreender suas consequências. Para algumas pessoas, parece mais fácil desacreditar a informação do que enfrentar essa sensação. Afinal, se a realidade estiver errada, não precisamos mudar nada em nós mesmos

Mas o problema não se limita àqueles que rejeitam abertamente a ciência. Existe uma maneira mais discreta de esvaziar o conhecimento: transformá-lo em entretenimento. Uma descoberta científica vira curiosidade, uma crise ambiental vira assunto de alguns dias e uma tragédia humana se transforma em mais um conteúdo entre vídeos engraçados, discussões superficiais e notícias que serão esquecidas na manhã seguinte. A informação circula, provoca alguma reação e desaparece, sem necessariamente produzir compreensão ou responsabilidade

Não há nada de errado em tornar o conhecimento acessível, utilizar o humor para explicar assuntos complexos ou produzir conteúdo interessante. O problema surge quando a necessidade de chamar atenção se torna mais importante do que aquilo que precisa ser compreendido. Se uma informação só merece espaço quando impressiona, diverte ou provoca uma reação imediata, assuntos importantes, mas difíceis de explicar, acabam perdendo lugar. O mundo real não precisa ser interessante o tempo inteiro para continuar exigindo nossa atenção

A própria política sofre com essa lógica. Muitas discussões são reduzidas a disputas entre personalidades, como se compreender um país significasse apenas escolher quem merece ser defendido e quem merece ser ridicularizado. Enquanto as pessoas discutem os personagens, as estruturas que permitem determinados problemas continuam funcionando. Criticar um político pode ser necessário, mas isso não significa compreender os interesses econômicos, as instituições e as decisões que tornam certas situações possíveis. A indignação, quando não ultrapassa a superfície, pode acabar servindo apenas como mais uma forma de entretenimento

E é justamente aí que a relação entre ciência e política se torna importante. A ciência procura compreender a realidade por meio de métodos, evidências e questionamentos, mas o conhecimento científico também é produzido e utilizado dentro de uma sociedade marcada por interesses, desigualdades e disputas de poder. Uma descoberta pode contribuir para melhorar a vida de milhares de pessoas, mas também pode ser utilizada para fins destrutivos ou permanecer inacessível para quem mais precisa dela. Conhecer algo não determina automaticamente o que será feito com esse conhecimento

Isso não significa que os fatos sejam apenas opiniões ou que todas as interpretações tenham o mesmo valor. Uma evidência bem estabelecida não se torna falsa porque contraria nossas preferências, e uma afirmação sem fundamento não adquire credibilidade apenas porque alguém acredita sinceramente nela. Reconhecer que a ciência se relaciona com a política não significa abandonar os critérios científicos, mas compreender que a produção e a aplicação do conhecimento também envolvem decisões sobre prioridades, recursos e consequências sociais

Portanto, não deveria ser apenas se temos conhecimento suficiente para resolver determinados problemas, mas por que tantas vezes esse conhecimento não se transforma em ação. Quando existem recursos para desenvolver tecnologias, produzir alimentos e criar soluções para necessidades humanas, mas o acesso a essas possibilidades continua profundamente desigual, precisamos olhar além da capacidade técnica. É necessário discutir quem decide, quem se beneficia, quem suporta os custos e quais interesses são considerados mais importantes

O dinheiro, por si só, não explica todos os problemas, assim como a existência de riqueza não significa automaticamente que alguém agirá de maneira irresponsável. O problema está em transformar o lucro na medida principal de todas as decisões, inclusive daquelas que envolvem vidas humanas e o futuro coletivo. Quando uma solução é avaliada exclusivamente pelo retorno financeiro, necessidades que não oferecem grandes oportunidades de lucro podem ser ignoradas, mesmo quando sua importância social é evidente

Essa contradição também aparece na maneira como admiramos pessoas muito ricas. O sucesso financeiro costuma ser tratado como prova de inteligência, competência e até superioridade moral, como se acumular riqueza fosse suficiente para demonstrar que alguém sabe o que é melhor para a sociedade. Entretanto, construir uma fortuna e contribuir para o bem coletivo não são necessariamente a mesma coisa. Uma pessoa pode ser extremamente competente em determinada atividade e ainda tomar decisões prejudiciais aos outros. Dinheiro demonstra poder de compra; não comprova, sozinho, sabedoria, responsabilidade ou compromisso com o bem comum

Também precisamos reconhecer que não estamos completamente fora desse sistema. É fácil condenar a superficialidade das redes sociais enquanto passamos horas consumindo conteúdos que não lembramos depois. É fácil exigir responsabilidade dos governantes enquanto deixamos de acompanhar as decisões que afetam nossa vida. E é fácil criticar a ganância alheia sem questionar as situações em que aceitamos vantagens pessoais mesmo quando sabemos que outras pessoas pagarão o preço. Isso não significa que todos tenham o mesmo poder ou a mesma responsabilidade, mas que a crítica perde parte de sua força quando se recusa a examinar as próprias contradições

Existe, ainda, uma dificuldade em lidar com notícias desagradáveis. Gostamos de acreditar que os problemas podem ser resolvidos sem grandes mudanças, que basta escolher as pessoas certas ou esperar que a tecnologia encontre uma solução. Entretanto, alguns desafios exigem decisões difíceis, mudanças de comportamento e a disposição de abrir mão de certas conveniências. Quando a realidade ameaça aquilo que consideramos confortável, é tentador procurar uma explicação que nos permita continuar vivendo como antes

O perigo não está apenas em negar um problema, mas em adiá-lo indefinidamente até que suas consequências se tornem mais difíceis de enfrentar. Uma sociedade pode conhecer os riscos de suas escolhas e continuar repetindo-as porque os benefícios imediatos parecem mais atraentes do que os prejuízos futuros. O que acontece amanhã parece distante; o conforto de hoje está bem diante dos nossos olhos. Assim, o futuro acaba sendo tratado como uma responsabilidade de alguém que ainda não chegou

Mas não basta esperar que as pessoas se tornem perfeitamente racionais ou moralmente superiores. A sociedade é formada por indivíduos contraditórios, instituições e interesses que nem sempre caminham na mesma direção. Por isso, a responsabilidade coletiva não pode depender apenas da boa vontade de algumas pessoas. Também precisamos de instituições confiáveis, transparência, educação, acesso ao conhecimento e mecanismos que permitam questionar decisões tomadas em nome de todos

A questão mais incômoda seja perceber que a humanidade não sofre apenas por desconhecer os perigos que produz, mas também por desenvolver maneiras de conviver com eles sem sentir que precisa fazer alguma coisa. Uma tragédia acontece, ficamos indignados, discutimos durante alguns dias e depois seguimos em frente. A repetição torna o absurdo familiar, e aquilo que antes parecia inaceitável passa a fazer parte da paisagem. Não é que deixamos necessariamente de saber que existe sofrimento; aprendemos a continuar nossas vidas mesmo quando ele permanece diante de nós

Por isso, a verdadeira questão não é apenas quem está certo em uma discussão ou qual grupo político merece ser responsabilizado. É entender por que tantas vezes preferimos vencer um debate a compreender um problema, defender uma figura pública a avaliar suas decisões e consumir informações a assumir as responsabilidades que elas trazem. O conhecimento só alcança parte de seu potencial quando deixa de ser um objeto de disputa e passa a contribuir para decisões conscientes, sem perder a capacidade de questionar o poder que o utiliza

A maior ameaça não seja a ausência de respostas, mas a convicção de que já sabemos o suficiente e não precisamos mudar nada. Uma sociedade pode possuir tecnologia avançada, universidades, pesquisadores e acesso a uma quantidade imensa de informações e ainda assim fracassar quando precisa decidir o que fazer com tudo isso. O conhecimento abre possibilidades, mas são nossas escolhas individuais e coletivas que determinam quais delas serão concretizadas


r/FilosofiaBAR • • 1d ago

Discussão Não há nada após a morte.

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Você quer saber como será a sua situação após a morte? Então me responda: Onde você estava antes do seu pai conhecer a sua mãe? Onde você estava antes que o espermatozoide do seu pai fecundasse o óvulo de sua mãe? Em lugar nenhum, né? Porque você não existia! Então é isso que vai acontecer com você, comigo e com todos os seres humanos. Voltaremos para a mesma situação de não existência.


r/FilosofiaBAR • • 1d ago

Questionamentos O que eu ainda não sou capaz de questionar?

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Já pensou sobre as coisas que você não questiona?

Já pensou sobre as coisas que você não pensa?

Eu sei que tem coisas sobre as quais não penso tanto, vez ou outra me vem a mente: "eu ainda não pensei muito sobre isso aqui." Ainda assim, nem sempre isso me faz parar e dedicar tempo a pensar essas questões.

E vocês, estão pensando sobre o que geralmente não pensam? Estão se projetando em lugares que, comumente, não habitam?


r/FilosofiaBAR • • 1d ago

Questionamentos A Privacidade antecede a Segurança?

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Seria a autoexposição um mal cultural?

Já vi muito post aqui no reddit que alertava que a falta de higiene digital e negligência do povo em relação a privacidade iria levar grande parte dos países subdesenvolvidos à falência política, ética e moral. Os posts, contudo, quase sempre eram apagados ou ridicularizados.

Grande parte dos eleitores de esquerda berravam nos comentários: "Se vc não faz nada de errado, então não tem pq se esconder!"

Pois é amiguinho.

A vida deu o troco com uma voadora. Um certo país (que eu esqueci o nome 🇧🇷) vai perder as eleições não somente pra 1, mas pra todos os apps americanos, algoritmos e sdks instalados dentro do proprio celular, que por anos o induziu a tomar zilhões de decisões, brigas e omissões (sobre quase tudo) baseado em dados de sua telemetria.

Céticos de que o Estado os protegeria, distraídos com os memes da Gretchen, rindo do CEO de Mei e perseguindo pobre de direita, cairam no conto da Sereia. Acharam que o inimigo tava do lado de fora, nunca parando pra averiguar o monstrinho que estava morando bem debaixo de suas próprias camas.


r/FilosofiaBAR • • 1d ago

Questionamentos Futuro profissional como bacharel em filosofia

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Eu tenho uma pergunta bem batida a esse ponto, que é sobre o futuro profissional do bacharel em filosofia. Eu estou no meio do bacharelado em uma universidade bem reputada e não pretendo fazer licenciatura, nem acho que sirvo para a docência. Sendo assim, o que me resta?

Meu plano é pegar uma IC e talvez fazer mestrado, mas depois disso o que me restará? Eu não nego o valor intrínseco disso, mas quando considero o extrínseco, fazer "história" no Departamento de filosofia (digo, ser um estudante/pesquisador ativo) parece tão insignificante, uma vez que, quando ou se mais dissociado da vida acadêmica, o pano de fundo de uma pessoa que quer entrar no mercado parece tão insignificante, tão desprezado.

Pois então o que me resta?


r/FilosofiaBAR • • 1d ago

Meta-drama Morte

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É tão doido o fato de que todos vamos morrer um dia. Isso realmente me rende crises existenciais inéditas.

Tipo... Como assim eu tô me acostumando a tomar café da manhã, perder tempo com coisas inúteis, mexer no celular, ver as mesmas pessoas todo dia e.. quando eu menos esperar, tudo isso se vai, EM UM ÚNICO DIA.

Dias, semanas, meses, anos, tudo fechado em sete chaves e enterrado para sempre. E no fim, viramos matéria orgânica novamente...

A maior parte da vida nem é sobre e viver intensamente. É sobre conversas banais, café quentinho de manhã, trabalho, estudos, dormir, assistir algo que você gosta.. são pequenas coisas que não são muito valorizadas, mas olhando pra trás, fazem tanta falta.

A vida é tão acostumavel. Se importar com problemas pequenos, adiar os planos... Fazemos isso diariamente na certeza de existir um novo dia pra tentar de novo. Mas.... E se não tiver um novo dia?

Quando me lembro disso, me dá vontade de viver a vida menos no automático e realmente VIVER, porque, bom, talvez o amanhã não exista..

Enfim, é isso. Se eu pudesse deixar um recado pra quem tá lendo isso aqui: viva como se fosse o último dia mesmo!! Aproveite, porque você nunca sabe se esse é o último dia.


r/FilosofiaBAR • • 1d ago

Citação Transformei o Livro VIII d'A República em um jogo sobre herança, e fiquei com algumas perguntas que queria discutir com vocês

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Olá, pessoal!

Sempre me fascinou a analogia que Platão faz entre a alma e a cidade, a ideia de que "a cidade é a alma escrita em letras grandes". No Livro VIII, ele descreve a decadência dos regimes (timocracia, oligarquia, democracia, tirania), e cada passo começa dentro de casa: o filho que vê o pai ser desprezado pela honra, o jovem criado entre a avareza e o desejo, o herdeiro que aprende com o que acontece à mesa.

Foi essa dimensão doméstica que me inspirou a criar um pequeno jogo narrativo, As Cinco Ceias. Nele, você conduz cinco gerações da mesma família, e cada geração vive um dos regimes. Em cada jantar, você brinda à Razão ou à Ambição e decide se serve pão simples ou um banquete, sempre diante de um herdeiro que observa tudo e herda o que você deixou.

Para quem tiver curiosidade, o jogo é gratuito e tem versão em português: The Five Suppers

Obrigado, pela atenção!


r/FilosofiaBAR • • 1d ago

Questionamentos Amo essa página

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Amo essa página, o pessoal escreve tão bem que eu fico pensando: quando eu vou escrever tão bem assim?


r/FilosofiaBAR • • 2d ago

Discussão O fato de morrer é estranho

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Digo, penso que todos devem achar estranho. Mas se parar para pensar minuciosamente que um dia você saberá que vai deixar tudo para trás e que não faz ideia do que te espera, é estranhíssimo.

E, independente, de você ir para outro lugar ou apenas deixar de existir, esse mundo continuará existindo. Não é estranho? Sua cabeça não estará mais aqui para processar esse mundo, mas ele continuará existindo…O fato de ser a sensação mais única da vida, e realmente será a mais única de toda a sua vida….

Bom, talvez nem eu saiba explicar o quão estranho é tudo isso, existir e não existir. Saber que existe e saber que algum dia não existirá, nunca vamos saber a sensação de não existir.


r/FilosofiaBAR • • 1d ago

Questionamentos Como lidar com a própria timidez cognitiva?

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Eu já sou um homem adulto, tenho família, fui- durante um certo tempo - bem sucedido. Hoje, refletindo sobre a minha existênci, assumo que sou uma pessoa burra. Entendi o mundo de maneira errada, entendi as relações humanas por um viés estupido e reconheço que sou cognitivamente tímido. Agora, como lidar com a própria burrice? Lutando contra? Aceitando? Fazendo igual a Glória Pires no Oscar? Gostaria de pontos de vista a esse respeito, se possível. Obrigado.


r/FilosofiaBAR • • 2d ago

Questionamentos Por que alguns marxistas chamam a teoria do Big Bang de burguesa?

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FONTE: https://anovademocracia.com.br/materias-impressas/o-materialismo-dialetico-e-o-big-bang/

Pergunta genuína, sem qualquer intenção de criar um espantalho ou algo do tipo. Pergunto isso porque não é a primeira vez que vejo e recentemente no Xwitter houve uma discussão com relação à fonte. Mas, se você se opõe por pressupostos ideológicos às conclusões apontadas pela evidência empírica, eu acho que essa posição que seria idealista.

Bom, me espanta saber que alguém ainda acha que o Big Bang foi uma explosão literal, principalmente porque a teoria cosmológica já discute o universo pré-Big Bang/expansão.