Apenas um adendo, minhas resenhas são com base no que o filme me faz refletir, caso tenha uma outra reflexão por favor compartilhe
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Há alguns dias eu estava a fim de ir ao cinema e assistir ao que estivesse passando, sem ter nada em mente; então lá fui eu abrir o site do Cine Roxy e ver o que tinha em cartaz. Das opções disponíveis, eu vi dois títulos que me chamaram a atenção: Street Fighter e Verity. Quanto ao Street Fighter, eu tenho a plena convicção de que é impossível sair um filme bom disso, já quanto ao Verity, eu tinha o ar da dúvida; então optei por ir assisti-lo.
E, nesse clima de não saber absolutamente nada sobre o filme, eu entrei na sala de cinema sem fazer ideia do que esperar ou do que iria ver e, após assistir, estou bem impressionado. O filme dá a mesmíssima sensação de estar ouvindo um audiolivro: tem uma narrativa e uma imersão muito legais. E acho que, assim como o filme, eu não serei capaz de comentá-lo de forma linear; é capaz de ficar um pouco confuso, mas faz parte.
Quando o filme começa nos apresentando a Verity com todos aqueles adjetivos fortes e positivos, mas também falando que ela usava em seus livros o seu lado sombrio, é uma boa preparação para o choque que temos ao vê-la daquela forma, tão vulnerável e posteriormente irônica, para finalmente ser chocante. E, enquanto a Lowen lia o manuscrito da autobiografia da Verity, meu cérebro automaticamente resgatou um episódio de Midnight Gospel.
No episódio 2, chamado Medite Como Cristo, Clancy entrevista uma também escritora chamada Anne, com quem ele fala sobre diversos temas, mas dois em específico eu acho que se encaixam bem aqui: o primeiro é a discussão sobre a morte e como aceitar a morte é algo libertador, o que eu pessoalmente trabalho pensando da mesma forma, e acho que a Verity não pensava assim, e o segundo é a facilidade que escritores, e artistas em geral, têm de fazer do próprio sofrimento um combustível para continuar escrevendo e criando sua arte, junto desse medo de que, se melhorar e parar de sofrer, automaticamente pare também de ser bom. Quem nunca ouviu histórias de como Stephen King escreveu capítulos inteiros dos quais não se lembrava de nada por conta de estar completamente louco?
A forma como a Verity começa sua autobiografia dizendo que achava autobiografias ridículas e que uma genuinamente boa é aquela em que o autor se despe de quaisquer armaduras ou autodefesas ridículas e faz o leitor ver suas entranhas expostas, para que aí sim sinta nojo, mas também aquela curiosidade humana de continuar lendo, é muito curiosa. Acho que é exatamente aí que nós caímos nesse labirinto construído e tudo passa a fazer sentido, para que, ao fim, volte a não fazer sentido nenhum.
Ao decorrer em que Lowen vai lendo e vendo mais sobre Verity, podemos enxergar uma clara obsessão crescente: um anseio de fazer parte, de ter aquilo para ela, de ser a Verity. Chega a ser até desconfortável. Mas ao mesmo tempo é tudo muito estranho, pois não sobra um que aparenta ser inocente ali, até mesmo o Jeremy, que aparentemente chamou a Lowen de propósito, parece ter feito questão de achar uma escritora que lembrava e muito fisicamente a Verity, e que, por coincidência ou não, escrevesse o mesmo gênero dela.
O próprio filme fala com todas as letras que a Verity era uma mestre em manipular a verdade, e o próprio filme questiona o que é real após aquela carta encontrada no piso: será que a carta diz a verdade? Ou será que foi escrita pela Verity como forma de tortura psicológica após ela ver o romance da Lowen com o Jeremy? Acho que muito provavelmente não tem resposta certa. Então eu volto para o questionamento que fiz: sendo verdade ou mentira, Verity usou de seu sofrimento como combustível, e isso me intriga. Por que criamos coisas tão boas usando nossos lados tão ruins? Por que nos interessamos tanto pelo sofrimento? Ou melhor, por que consumimos tanto o sofrimento?
Ninguém é agradável de dentro para fora.
Nota: 3/5. Recomendo, é um bom filme apesar que a reta final dele eu achei uma transição muito brusca, porém, não diminuí o prazer de assistir.