r/AskAutism • u/sunnykanoi • 14h ago
Afinal, quais são os Tipos de Autismo?
​
O Autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado essencialmente, por dificuldades na comunicação e na interação social, além da presença de comportamentos e interesses repetitivos ou restritos.
Essas características variam amplamente em intensidade de pessoa para pessoa, e são divididas em dois grandes pilares diagnósticos:
- Comunicação e Interação Social
Dificuldade na reciprocidade socioemocional: Desafios em iniciar ou manter uma conversa, compartilhar interesses ou expressar emoções de forma convencional.
Dificuldade na comunicação não verbal: Menor uso de contato visual, expressões faciais, gestos ou tom de voz para se comunicar.
Dificuldade em desenvolver e manter relacionamentos: Desafios em ajustar o comportamento a diferentes contextos sociais, fazer amigos ou compartilhar brincadeiras imaginativas.
- Comportamentos e Interesses Restritos ou Repetitivos
Movimentos ou falas repetitivas: Presença de estereotipias (como balançar as mãos ou o corpo) ou ecolalia (repetição de palavras ou frases).
Insistência na rotina: Forte apego a horários e sequências fixas, com grande sofrimento diante de mudanças inesperadas.
Interesses altamente fixos: Foco intenso e profundo em tópicos específicos (os chamados hiperfocos), como dinossauros, sistemas de transporte ou astronomia.
Sensibilidade sensorial: Hiper ou hiporeatividade a estímulos do ambiente, como incômodo extremo com sons altos, texturas de roupas ou luzes brilhantes.
**Breve História do Transtorno Autista:**
A história do Transtorno do Espectro Autista (TEA) começou no início do século XX e passou por grandes mudanças na medicina, na ciência e na sociedade.
Principais Marcos Históricos
1908 – O surgimento do termo: O psiquiatra suíço Eugen Bleuler cunhou a palavra "autismo" (do grego autos, que significa "eu") para descrever pacientes esquizofrênicos que se isolavam em seu próprio mundo interior.
1943 – O autismo infantil: O psiquiatra Leo Kanner, nos Estados Unidos, publicou um estudo histórico com 11 crianças descrevendo o "autismo infantil precoce", caracterizado pelo isolamento extremo e pela necessidade de rotinas rígidas.
1944 – A psicopatia autista: Independentemente de Kanner, o pediatra austríaco Hans Asperger descreveu um grupo de crianças com dificuldades sociais, mas com boa habilidade verbal e interesses intensos (mais tarde associado à Síndrome de Asperger).
Anos 1950 e 1960 – O mito da "Mãe Geladeira": O psicanalista Bruno Bettelheim popularizou a teoria errônea de que o autismo era causado pela falta de afeto ou frieza emocional das mães. Essa ideia foi derrubada por evidências científicas nas décadas seguintes.
1980 – Reconhecimento oficial: O manual DSM-III (da Associação Americana de Psiquiatria) passou a reconhecer o autismo como um diagnóstico próprio, separando-o da esquizofrenia.
1981 – O conceito de espectro: A pesquisadora Lorna Wing resgatou os trabalhos de Hans Asperger e formulou a ideia de um espectro autista, mostrando que os sintomas variam em tipos e intensidades.
1994 – Expansão dos diagnósticos: O DSM-IV incluiu várias subcategorias, como o Transtorno Autista e a Síndrome de Asperger.
2007 – Dia Mundial: A ONU instituiu o 2 de abril como o Dia Mundial de Conscientização do Autismo.
2013 – Unificação no DSM-5: O DSM-5 eliminou as subdivisões antigas e unificou tudo sob o termo Transtorno do Espectro Autista (TEA), classificado por níveis de suporte.
**Niveis de Suporte:**
Atualmente, a medicina não divide mais a condição em "tipos" separados (como o autismo clássico ou a Síndrome de Asperger). Desde a publicação de manuais como o DSM-5 e a CID-11, entende-se que existe apenas um diagnóstico único: o Transtorno do Espectro Autista (TEA).
A palavra "espectro" é usada justamente porque o autismo se manifesta de forma diferente em cada pessoa. Em vez de tipos, o autismo é classificado por três níveis de suporte, que definem o nível de ajuda que a pessoa precisa no dia a dia:
Os Três Níveis de Suporte do TEA:
**Nível 1**
*Nomenclatura Popular: Leve*
Características Principais:
Comunicação verbal funcional. Pequenas dificuldades para iniciar interações sociais e sutil inflexibilidade comportamental
Autonomia e Dependência:
Alta autonomia. A pessoa necessita de suporte leve, geralmente focado em terapias para habilidades sociais e organização.
**Nível 2**
Nomenclatura Popular: Moderado
Características Principais:
Déficits mais marcantes na comunicação verbal e não verbal. Comportamentos repetitivos e inflexibilidade de rotina ficam nítidos a olhos vistos.
Autonomia e Dependência:
Autonomia parcial. Necessita de suporte substancial para realizar atividades sociais, escolares ou profissionais no dia a dia.
**Nível 3**
Nomenclatura Popular: Severo ou Profundo
Características Principais:
Graves déficits na comunicação (muitos são não-verbais). Grande estresse ou sofrimento para mudar de foco ou rotina.
**Autonomia e Dependência:**
Baixa autonomia. Requer suporte muito substancial e contínuo. Precisa de ajuda diária e direta para tarefas básicas, como higiene e alimentação.
**Nota importante:** O nível de suporte de uma pessoa pode mudar ao longo da vida. Com terapias adequadas, intervenção precoce e estímulo, um autista pode evoluir e precisar de menos suporte em certas áreas.
**Diagnóstico**
O diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é 100% clínico. Isso significa que não existem exames de sangue, genéticos ou de imagem (como ressonância) capazes de detectar o autismo.
O processo é baseado na análise minuciosa do comportamento, do histórico de vida e do desenvolvimento da pessoa.
**Como funciona o processo de diagnóstico?**
O processo geralmente envolve uma investigação detalhada que se divide em quatro etapas principais:
Entrevistas Clínicas (Anamnese): O especialista entrevista os pais/cuidadores (no caso de crianças) ou o próprio paciente (no caso de adultos) para mapear os marcos do desenvolvimento, como a idade em que começou a falar, andar e como interagia com outras pessoas desde a infância.
Observação Direta: O profissional avalia como o paciente se comunica, mantém contato visual, reage a estímulos do ambiente e se expressa na prática durante a consulta.
Aplicação de Escalas e Testes Padronizados: São questionários e protocolos validados cientificamente. Os mais conhecidos são:
• M-CHAT: Escala de rastreamento inicial usada em bebês e crianças pequenas.
• ADOS-2 e ADI-R: Testes de observação e entrevista profunda considerados o "padrão-ouro" no mundo inteiro.
• CARS: Escala para avaliar a intensidade dos traços.
Avaliação Neuropsicológica: Uma bateria de testes realizados por um psicólogo ou neuropsicólogo para avaliar funções cognitivas, memória, atenção, linguagem e sensibilidade sensorial.
**Quem pode dar o diagnóstico?**
Embora o parecer seja médico, o processo ideal e mais assertivo é feito por uma equipe multidisciplinar (psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional). No entanto, os laudos médicos finais com a indicação do CID (Código Internacional de Doenças) devem ser assinados por:
• Para Crianças: Neuropediatras, Psiquiatras Infantis ou Pediatras do Desenvolvimento.
• Para Adultos: Psiquiatras ou Neurologistas.
**Diferença no Diagnóstico: Crianças vs. Adultos**
• Em Crianças: O foco está no atraso dos marcos de desenvolvimento (como não responder pelo nome aos 12 meses, não apontar para objetos ou apresentar atraso na fala). Os sinais costumam ser mais visíveis para os pais e professores.
• Em Adultos: O diagnóstico costuma ser mais complexo porque muitos aprenderam a fazer o masking (camuflagem social) para tentar se encaixar no ambiente ao longo da vida. A investigação foca em esgotamento mental frequente (burnout), histórico crônico de ansiedade ou inadequação social, hipersensibilidade a barulhos/texturas e rigidez mental extrema.
**Fontes:**
As informações compartilhadas foram fundamentadas em manuais médicos internacionais de diagnóstico, portais especializados em saúde no Brasil e legislações federais.
As fontes principais e as respectivas autoridades médicas consultadas são:
- Manuais Diagnósticos e Diretrizes Médicas (Padrão-Ouro)
• DSM-5 e DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais): Publicado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA), estabelece os critérios diagnósticos para o TEA (Critérios A e B) e define a divisão baseada nos três níveis de suporte.
• CID-11 (Classificação Internacional de Doenças): Desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A versão atualizada (sob o código 6A02) unificou os antigos subtipos clínicos e categoriza o transtorno com base na presença ou ausência de deficiência intelectual e comprometimento da linguagem funcional.
- Portais Especializados e Institutos de Pesquisa no Brasil
• Instituto Inclusão Brasil: Utilizado para verificar o panorama de transição epidemiológica e a aplicação clínica complementar dos manuais no país.
• ONG Autismo e Realidade: Plataforma de apoio técnico que detalha a linha do tempo e marcos históricos do autismo, desde a primeira menção do termo por Eugen Bleuler (1908) até as mudanças clínicas contemporâneas.
• Genial Care (Portal de Saúde Mental e Neurodesenvolvimento): Consulta técnica sobre a aplicação de instrumentos padronizados de rastreio e diagnóstico (como os protocolos mundiais ADOS-2, ADI-R e CARS) e a composição das juntas multidisciplinares.
• Revista Tismoo: Especializada em análises de biologia molecular, genética e avanços no diagnóstico do autismo no Brasil.
- Legislação Brasileira (Fontes Governamentais)
• Lei nº 12.764/2012 (Lei Berenice Piana): Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.
• Lei nº 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência): Garante os direitos fundamentais de acessibilidade e o combate à discriminação.
• Lei nº 13.977/2020 (Lei Romeo Mion): Cria a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (CIPTEA).
**Artigos seminais originais dos pioneiros:**
_Leo Kanner (1943): "Autistic disturbances of affective contact" (onde ele descreve os primeiros 11 casos na psiquiatria infantil).
_Hans Asperger (1944): "Die ‘Autistischen Psychopathen’ im Kindesalter" (focado no comportamento de crianças com inteligência e fala preservadas).
_Lorna Wing (1981): "Asperger's syndrome: a clinical account" (o artigo científico que resgatou o trabalho de Asperger e introduziu oficialmente o conceito moderno de "espectro").
A imagem foi elaborada pela autora.