r/literaciafinanceira • u/Highland_Owl_00s • 57m ago
Discussão Portugal é o país do mundo mais exposto ao capital chinês
expresso.ptNos últimos anos Portugal recebeu de braços abertos o capital chinês, que tem hoje posições na EDP, na REN no BCP, na Fidelidade e na Mota-Engil, só para citar algumas empresas. Particularmente controversas por incidirem sobre um sector estratégico, as participações na energia foram adquiridas nos primeiros anos da troika, quando o Estado foi obrigado a vender ativos para tentar reequilibrar as contas. Mas há muito que são conhecidas as reticências dos Estados Unidos da América (EUA) sobre os interesses chineses.
George Glass, embaixador dos EUA em Lisboa entre 2017 e 2021 e que atualmente lidera a Embaixada de Tóquio, dizia-o com todas as letras, em entrevista ao Expresso, em setembro de 2020: “Portugal tem de escolher agora entre os aliados e os chineses.” Glass reconhecia a necessidade de o fazer nos anos da crise da dívida com a venda da EDP, por exemplo. Porém, em 2018, quando a China Three Gorges lançou uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) sobre a elétrica, a aliança com Pequim já não se justificava, na ótica de Washington. Sob forte oposição americana e sem as necessárias autorizações regulatórias, a China Three Gorges deixou cair a OPA, mas continua a ser o maior acionista da EDP. Os 22,2% da estatal chinesa na empresa portuguesa valem hoje €4,55 mil milhões (em 2012 a State Grid pagou €2,7 mil milhões por 21,35%). A essa valorização o acionista chinês soma um fluxo recorrente de dividendos (para Pequim revertem quase €190 milhões por ano).
O caso de Portugal
Descontando centros offshore que servem para operações e registos financeiros que não correspondem a verdadeira atividade económica, Portugal é o país do mundo com maior peso da China nas suas empresas. Os ativos das organizações com participação chinesa representaram, em média, 13,78% de todos os ativos empresariais em Portugal entre 2012 e 2021. Valor maior apenas se encontra nas Ilhas Caimão (46,3%), Bermuda (22,1%) e Ilhas Virgens Britânicas (16,8%). A fechar o top 5 está Singapura, com 10%. Os valores constam de um estudo publicado este ano pelos economistas Jennie Bai, Luc Laeven, Yaojun Ke e Hong Ru, respetivamente das Universidades de Georgetown (EUA) e Nanyang (Singapura), do Banco Central Europeu e do MIT (EUA).
Os quatro investigadores compilaram uma base de dados com as participações chinesas em 161.773 empresas de 159 países para analisar precisamente o papel que têm nas economias. Em alguns casos os autores conseguiram mapear os beneficiários últimos das participações e não ficar a apenas pela empresa utilizada para controlar a posição acionista. Por exemplo, a participação chinesa na EDP é detida pela China Three Gorges Europe, SA, do Luxemburgo. Esta foi também a jurisdição escolhida em 2016 pela chinesa Fosun para entrar no capital do BCP (onde tem uma posição de 20,45%), por via de uma sociedade designada Chiado.
O artigo “China’s Global Ownership” foi publicado pelo National Bureau of Economic (NBER), dos EUA, e conclui, entre outras coisas, que a presença chinesa na economia global é superior ao que sugerem as estatísticas oficiais e tem crescido bastante nos últimos anos do período em análise (os dados vão até 2021, mas no caso português os maiores investimentos chineses perduraram até hoje). Os autores notam que a China privilegia economias avançadas e sectores estratégicos, na maior parte das vezes através de empresas estatais que usam estas aquisições para obter tecnologia. Os autores do trabalho concluem também que, em geral, a entrada de capital chinês não se traduz em ganhos de inovação nas empresas-alvo e há até redução de rentabilidade. Em relação a Portugal e Singapura, dois casos com posições chinesas significativas, os investigadores dizem mesmo que “servem de portas de entrada para a União Europeia e para hubs-chave da Ásia”.
Mas a investigação concluiu também que para os investidores chineses tende a haver benefícios para lá dos dividendos das participações: “As casas-mães chinesas experienciam uma aceleração na obtenção de patentes após as suas primeiras aquisições em economias desenvolvidas”, refere o trabalho publicado pelo NREL. No caso da EDP, a aposta da China Three Gorges abriu portas a múltiplos investimentos em ativos de energias renováveis, já que a empresa chinesa se comprometeu a comprar posições em ativos do grupo português. Mas no caso da REN a State Grid of China (que em 2012 adquiriu 25% da gestora da rede elétrica) foi diferente: as duas empresas criaram, logo em 2013, o centro de investigação e desenvolvimento R&D Nester. Este ano o Estado português regressou ao capital da REN, investindo mais de €500 milhões em 19% da gestora da rede elétrica (comprou 13,7% à família Ortega e 5,3% à Fidelidade, controlada pela Fosun). Mas o Governo já afirmou que quer que a chinesa State Grid se mantenha na empresa.
Os autores do estudo optaram por trabalhar com dados de dezenas de milhares de organizações de grande dimensão para estudar o alcance do capital chinês, apontando as limitações de análises baseadas só no investimento direto estrangeiro (IDE). Os números mais recentes do Banco de Portugal mostram que em junho o IDE da China no nosso país ascendia a €3,64 mil milhões. O registo (distante dos €40 mil milhões aplicados em Portugal a partir do Luxemburgo e dos €45,6 mil milhões de IDE oriundos de Espanha) não espelha todo o capital chinês presente no tecido empresarial luso.
Além da EDP, da REN e do BCP, os investimentos da China em Portugal estendem-se à construção (a CCCC tem 32,4% da Mota-Engil), à banca (Haitong Bank e Bison Bank), ao sector da água (Be Water), entre outras áreas. Na última década e meia as portas de Portugal abriram-se. E hoje o país recebe também investimento industrial chinês, de que é exemplo a fábrica de baterias que a CALB está a começar a construir em Sines, num projeto de €2 mil milhões.
Fosun avalia saída do BCP
O Governo quer evitar a expansão da presença espanhola em Portugal e a banca é vista como uma área crítica, sobretudo à luz da hipótese de a chinesa Fosun sair do capital do BCP (onde tem uma posição de 20,45%) e da recente venda do Novo Banco aos franceses do BPCE, em detrimento de interesses espanhóis. Para já, o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, afirma que uma eventual entrada no BCP “não é um tema que tenha sido abordado”. O ministro manifestou-se surpreendido com a notícia do Expresso que indicava que o Governo estava a estudar entrar no BCP, apesar de não ter respondido ao Expresso quando questionado sobre esse tema. Entretanto o Estado comprou à Fidelidade (detida pela Fosun e CGD) a sua posição na REN.

